sexta-feira, 18 de novembro de 2011

As Esganadas – Jô Soares

Caronte, dono da conceituada funerária Estige, vive atormentado pela mãe desde sempre - deve até seu nome (na mitologia grega, Caronte é o barqueiro que leva almas pelo rio Estige, fazendo a travessia entre o mundo dos vivos e dos mortos) ao humor discutível de Odília. Seu pai sempre vivera sob o domínio autoritário da mulher, e, por conta disso, ao completar 50 anos, suicida-se, deixando a funerária para Caronte.

Caronte nunca quis tomar parte nos negócios familiares - apaixonado pela música clássica (aprendeu a tocar piano de ouvido), queria ser maestro. Sua mãe, é claro, proibiu. Ela, que era gorda, também proibia o filho de comer doces e controlava sua alimentação, com receio de que ele ficasse como ela. Caronte a odiava.

Então, decidiu matá-la.
A morte de Odília foi considerada acidental. Na verdade, o “acidente” havia sido provocado por um empurrão do filho. O corpo fora encontrado no chão liso da cozinha como se ela tivesse escorregado e batido com a base do crânio na quina do forno, quando preparava um imenso Pudim Abade de Priscos. Antes de chamar a polícia, Caronte debruçou-se sobre o fogão e sorveu avidamente a calda caramelada do pudim mesclada ao sangue da mãe. Um espasmo sacudiu todo o seu corpo e a nódoa escura que se alargava na frente das suas calças revelava o fruto de um orgasmo incontrolável.
Porém, isso não aplaca sua angústia. Desde então, Caronte passa a assassinar mulheres gordas, esganadas por comida, esganadas com comida.

Sim, já no início do livro, o autor dos crimes, bem como seu método, é revelado, restando o suspense sobre se/como será feita sua captura. Então, são introduzidos os personagens que comandam a investigação: um delegado mal-humorado, seu medroso e simplório assistente e o detetive português "Esteves sem metafísica" (do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa). 

Pessoas que realmente existiram, como o próprio Fernando Pessoa, estão presentes na obra, mas não de forma acentuada, sendo levemente incluídas (a maior parte é apenas citada).

Jô Soares, ainda, tenta dar uma ambientação mais histórica (a narrativa se passa no Rio de Janeiro de 1938, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas), incluindo, por exemplo, notícias de rádio - mas não convence muito.

"As Esganadas" conta também com citações eruditas, passagens em outros idiomas sem tradução e alguns vocábulos não muito comuns (que não são de fácil compreensão para o leitor não habituado - como comprovado por um dos próprios personagens, que muitas vezes é ridicularizado por isso). Fica a sensação de que  o autor tenta se usar desses elementos para conferir, forçadamente, intelectualidade a sua obra.

Em se tratando de um livro de um humorista conceituado, espera-se que existam passagens divertidas, porém, não existem trechos notadamente engraçados. Esclarecendo: a intenção de provocar risadas existe, mas não chega a divertir e conta com tiradas prontas - a clássica piada de português, previsivelmente (já que um dos principais personagens é português), está presente.

Quanto à trama, poderia ser mais bem explorada. Não se sente todo o drama de Caronte, não justificando suas ações extremas. Certo, aqui você pode dizer que não se justificam as ações de um psicopata, mas, neste caso, o próprio autor deixa claro que Caronte é movido única e exclusivamente em busca de vingar-se da mãe. Ora, por que ele opta pelo assassínio? Não fica claro o momento exato que Caronte mata sua mãe, apenas que foi depois da morte do pai, mas presume-se que ele já não era mais uma criança, por que, então, não simplesmente deixou tudo e foi em busca de seu sonho (excelente músico que era - ao ponto de ser perfeitamente capaz de ingressar em uma orquestra)? E, depois que o fez, por que prosseguir? Finalmente estava livre da tirania materna, ninguém suspeitava dele e tinha dinheiro suficiente para fazer o que bem entendesse de sua vida. Simplesmente não me parece coerente.

A "genialidade" de Caronte ao assassinar mulheres gordas entupindo-as de comida foi uma boa sacada. Só que não é novidade. É inevitável não associar seu método ao filme "Seven - os sete pecados capitais". Na abertura do filme em questão, vê-se o psicopata arrancar a pele dos dedos para retirar suas impressões digitais e não deixá-las na cena do crime. No primeiro crime, um homem extremamente gordo é amarrado e obrigado a comer até a morte.  Certo, você pode dizer de novo, mas todo mundo recebe "influências" de outras coisas para escrever. Tudo bem então. Até aí, sem problemas, se o fato  fosse bem aproveitado no livro.

Enfim, "As Esganadas" é uma história simples com ares de intelectual, que não cativa, não diverte, e nem consegue entreter.

4 comentários:

  1. João Felipe Gomes27 de março de 2012 22:52

    Olá, amei o seu blog. Estou lendo no momento "As Esganadas", gostei do sua resenha ela mostra uma leitora decidida e crítica. Eu também tenho um blog e escrevo resenhas, poderias depois segui-lo?

    http://lugardoleitor.blogspot.com.br/ 

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  2. Oi, João Felipe! Obrigada, fico feliz que vc tenha gostado :) Vou conhecer o seu blog, sim! Depois não se esquece de dar a sua opinião sobre "As Esganadas" também.

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  3. João Felipe Gomes28 de março de 2012 23:41

    De volta! Terminei o livro e não gostei... A resenha está no meu blog: 
    http://lugardoleitor.blogspot.com.br/2012/03/joao-felipe-gomes-as-esganadas.html

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