terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os Espiões – Luis Fernando Verissimo


Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer. Mas só bebo nos fins de semana. De segunda a sexta trabalho numa editora, onde uma das minhas funções é examinar os originais que chegam pelo correio, entram pelas janelas, caem do teto, brotam do chão ou são atirados na minha mesa pelo Marcito, dono da editora, com a frase “Vê se isso presta”.

Há 12 anos, recém casado e com o filho para nascer, a ideia de trabalhar numa editora o seduzira.

Minha primeira tarefa na editora foi copiar um texto sobre camaleões de uma enciclopédia, para incluir no almanaque. Escolha profética: o camaleão é um bicho que se adapta a qualquer circunstância e desaparece contra o fundo. Desde então é isso que eu faço. Leio originais. Escrevo cartas. Redijo quase todo o almanaque para ajudar a vender adubo. Me lamento e bebo. E, lentamente, desapareço contra o fundo.

Os finais de semana – que começam na sexta-feira – são regados à bebida no bar do Espanhol – que não é espanhol – com os mesmos companheiros de sempre. O mais freqüente é Joel Dubin, que trabalha alguns dias na editora como revisor e dá aulas de português num cursinho, e os dois tinham longas discussões sobre literatura e gramática, além de discordarem radicalmente quanto à colocação de vírgulas.

Uma vez ficamos quase uma hora gritando um para o outro, a respeito de não me lembro que dúvida gramatical:
– Ênclise!
– Próclise!
– Ênclise!
– Próclise!
– Ênclise!
– Próclise!
Até o Espanhol fazer sinal, de trás do balcão, para baixarmos a bola.

O único problema pós torpor-de-fim-de-semana é a violenta ressaca na segunda-feira.

Se Guerra e Paz caísse na minha mesa numa segunda-feira, eu mandaria seu autor plantar cebolas. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir. Graham Greene? Tente farmácia. Nem Le Carré escaparia.

Sua rotina muda quando chega um envelope branco à editora, contendo 4 folhas manuscritas intituladas “Ariadne” (com uma florzinha no lugar do pingo no “i”), que, a despeito dos erros gramaticais contidos, fascinam o editor.

Meu pai conheceu um pintor na Europa que era obcecado por Ariadne. Devo o meu nome à obsessão de alguém que nunca vi. Às vezes penso que toda a minha vida foi regida pelas obsessões dos outros. Ao menos a obsessão que me matará será só minha pois nada é tão autoindulgente e solitário quanto o suicídio. Mas não agora não agora.

Atraído pelo mistério das confissões de Ariadne, juntamente com seus companheiros de bar, ele decide instaurar a “Operação Teseu”, transformando-os em espiões – que, diga-se de passagem, como espiões são excelentes cozinheiros –, para desvendar os segredos e evitar a morte da moça.

E é a partir daí que Verissimo erra a mão.

“Os Espiões” tem um início promissor, divertido e enigmático, que consegue sorrisos já nas primeiras linhas. No entanto, isso não se sustenta.

O narrador-personagem, frustrado tanto com seu casamento quanto com seu emprego, embarca em devaneios românticos exagerados (dignos do homem menos pontual do mundo de José de Alencar em busca de sua amada), e, juntamente com seus companheiros, envolve-se em situações inusitadas, acabando por “meter os pés pelas mãos”.

Além disso, a verossimilhança inicial é perdida ao longo do livro.

Ainda assim, a leitura é fácil e rápida. A história possui trechos bem humorados e prende o leitor até o fim, contando com um desfecho inusitado e surpreendente.

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