sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dracula – Bram Stoker


Raphaella's Journal

18 de maio, noite. – Já faz tempo que li "Dracula", de Bram Stoker. Minha edição é da Penguim, em inglês (por isso a falta de acento), até colei uma cópia dela aqui, para não ter dúvidas em eventuais consultas futuras.

Esse livro me persegue, então resolvi deixar a preguiça de lado e desenterrar este diário (o que é meio irônico, na verdade) para fazer algumas observações sobre ele - e o que falam dele por aí (eu ia até dar um título para este dia, em vez de apenas fazer o usual - colocar a data - mas achei que "A verdade sobre 'Dracula'" era muito pretensioso).

Não gosto muito de falar sobre clássicos - fico com a impressão de que alguém vai aparecer gritando "ISSO NÃO CONDIZ COM O QUE O PROFESSOR FULANO DE TAL FALOU NO ENSAIO BLÁ BLÁ BLÁ WHISKAS SACHÊ" -, mas como isso aqui é um diário e ninguém vai ler mesmo, resolvi por a mão na massa (críticos e professores de português se reviram pelo vício de linguagem). Apesar de que a Mina falou a mesma coisa sobre o diário dela, e olha só o que aconteceu depois... Bem, está tarde, amanhã escrevo mais.

19 de maio, manhã. – Nossa, que sono, não consegui dormir direito. Se eu não tivesse aula hoje, teria ficado mais um pouco na cama...  Agora não adianta pensar nisso, já fui e já voltei da aula mesmo. Ah, por falar em voltar, voltemos a "Dracula". 

Na época que li, não soube muito bem o que pensar sobre o livro - não consegui decidir se realmente gostei ou não, apesar de ter achado (e ainda achar) interessante finalmente conhecer o sanguessuga original, tendo em vista o tanto que surgiu a partir dele (eu sei que já existiam lendas sobre vampiros antes, mas até onde sei - não, não quero irritar professores de redação de propósito, nenhum deles vai ler mesmo - o Stoker foi o primeiro a escrever um romance bem estruturado sobre isso).

Sim, "Dracula" é um romance. Para ter certeza de que ninguém - não que eu vá mostrar isso para alguém, mas vai saber - pensará em nada meloso por causa da palavra "romance", copiei alguns trechos de quando o Jonathan Harker está preso no castelo do Conde, na Transilvânia, aqui em baixo.
What manner of man is this, or what manner of creature is in the semblance of man? I feel the dread of this horrible place overpowering me; I am in fear - in awful fear - and there is no escape for me; I am encompassed about with terrors that I dare not think of...
(É, Jonathan, bem que tentaram te avisar, quem mandou não acreditar?)
'Monster, give me my child!'
She threw herself on her knees, and raising up her hands, cried the same words in tones which wrung my heart. (...)
Somewhere high overhead, probably on the tower, I heard the voice of the Count calling in his harsh, metallic whisper. His call seemed to be answered from far and wide by the howling of wolves. (...)
There was no cry from the woman, and the howling of the wolves was but short. Before long they streamed away singly, licking their lips.
I could not pity her, for I knew now what had become of her child, and she was better dead.
( É, o Drácula não bebe sangue de leão da montanha. Não proíbe ninguém de matar pessoas Não toma sangue sintético. Não quer a paz mundial. Ele é mau. Ponto.)
At least God's mercy is better than that of this monsters, and the precipice is steep and high. At its foot man may sleep - as a man. Good-bye, all! Mina!
(Oh, tchau, Jonathan.)

Só que o romance não é nos moldes usuais. Ele, na verdade, é uma compilação de diários, cartas, notícias de jornais, telegramas... tem até transcrição de um gramofone.

Outro ponto interessante é a figura do Conde. Como eu falei, ele não se prende à moral, à ética, mas quem lê o livro não encontra cenas absurdas de violência ou qualquer outro tipo de depravação. Drácula é assustador para os personagens, inclusive, pelo ar de mistério que o cerca.  É quase aquela coisa provocada pelo Sauron, em "O Senhor dos Anéis": ninguém sabe o que ele está aprontando, mas sabe que nada bom pode vir dali. Além disso, as descobertas sobre a natureza  do "homem" são feitas aos poucos, e ele surpreende todo mundo com suas jogadas.

O que? Como? Quando?

Opa, preciso ir: almoço.

19 de maio, tarde. – Ah, acabei de ler o que escrevi hoje cedo, para fazer sentido totalmente, preciso esclarecer umas coisas que encontrei no livro e me incomodaram. Eu sei que o livro foi publicado pela primeira vez em 1897, mas é complicado ler algumas coisas escritas ali. A começar pela questão da apregoada superioridade masculina. 

Como salvar a Lucy, que está perdendo sangue? Transfusões do sangue todo poderoso dos homens da história. É sério, ela recebe sangue de quatro caras diferentes - só posso pensar que ela seja AB+, ou então teria morrido por isso, sendo o Conde inofensivo em comparação aos amiguinhos dela.


Além disso, todo mundo gosta da Mina porque ela tem coração de mulher, mas cérebro de homem (corajosa como um homem, inteligente como um homem, útil como um homem - ok, posso ter exagerado aqui, mas pelo que lembro é bem assim mesmo). Mas minha ideia não é fazer uma tese sobre as diferenças entre a sociedade atual e a da época, então chega desse assunto.

Ah, outra coisa que me incomoda (e por isso disse que o livro me persegue) é o tanto de gente que resolve falar de "Dracula" sem ter lido. Acho que o povo deve ver alguma adaptação por aí e sai falando como se tivesse conhecimento de causa - igual aluno que não quer ler o livro obrigatório do bimestre, baixa vê o filme e vai fazer a prova se achando o máximo. 

Vou explicar daqui a pouco os pontos principais a este respeito, só vou pegar o livro primeiro, para encontrar as citações que comprovam meus argumentos (e poder esfregar na cara de mostrar para quem vier discutir comigo dizendo que estou errada). Ah, provavelmente, spoilers de "Dracula" já estão todos expirados a esta altura do campeonato - acho que ninguém se importa mais -, mas se você roubou meu diário escondido e chegou até aqui, diferente de você (que pega as coisas dos outros sem permissão) vou ser legal e avisar que, possivelmente, vou colocar alguns spoilers (não sei se grandes e cheios de dentes ou coisinhas inofensivas, mas fica o aviso) daqui pra frente.

Mesmo dia, mais tarde. – Pronto, citações separadas - demorei um pouquinho para encontrar tudo o que eu queria. Onde eu estava mesmo? Ah, sim, aquilo que deve fazer o Stoker se revirar no caixão.

NÃO tem essa de "O amor do Conde e da Mina o redimiu no final". Não tem amor do Conde pela Mina. Nem da Mina pelo Conde, aliás. Quem diz isso é porque não leu o livro. Duvida? Eu provo.

Nunca assisti a nenhuma das inúmeras adaptações que existem por aí, então preciso me lembrar de perguntar para alguém que já tenha feito isso, mas acho que essa coisa do amor deve vir de alguma delas. Mas, no livro, Drácula bebe o sangue da Mina e a obriga a beber o sangue dele (o que? Achou que ela fazia isso por vontade própria? Não, não. Ela tem uma quantidade razoável de neurônios afinal de contas.) não porque a ama, mas sim porque quer se vingar. Dela, do marido dela (pasme: ela é casada com o Jonathan Harker, o nome de solteira dela é Murray), do Van Helsing, enfim, da gangue toda. Lê aí o discurso quem-mandou-ousar-entrar-no-meu-caminho que o Conde faz para a Mina:
'Then he spoke to me mockling: "And so you, like the others, would play your brains against mine. You would help these men to hunt me and frustrate me in my designs! You know now, and they know in part already, and will know in full before long, what it is to cross my path. They should have kept their energies for use closer to home. Whilst they played wits against me - against who commanded nations, and intrigued for them, and fought for them, hundreds of years before they were born - I was countermining them. And you, their best beloved one, are now to me flesh of my flesh; blood of my blood; kin of my kin; my bountiful wine-press for a while; and shall be later on my companion and my helper. You shall be avenged in turn; for not one of them but shall minister your needs. But as yet you are to be punished for what you have done. You have aided in thwarting me; now you shall come to my call. When my brain says "Come!" to you, you shall cross land or sea to do my bidding.
É, ele vai tê-la como companheira, junto com as outras três, mas só porque estavam tentando frustrar os seus planos. Convenhamos que o Conde tem um certo humor - quem mandou brincarem de caça ao vampiro e esquecerem de cuidar da própria casa?

(o dele é colado no caixão)

Mas a Mina estava caidinha pelo dark lord, né? De jeito nenhum, ela só tem pena dele - e ainda assim só porque sentiu na pele o medo de virar vampira e perder a alma. Olha lá o que ela fala para o Jonathan, quando ele diz que queria mandar o Conde arder no mármore do inferno:
'May God give him into my hand just for long enough to destroy that earthly life of him which we are aiming at. If beyond it I could send his soul for ever and ever to burning hell I would do it!'
'Oh, hush! oh, hush! in the name of the God. Don't say such things, Jonathan, my husband; or you will crush me with fear and horror. Just think, my dear - I have been thinking all this long, long day of it - that... perhaps... some day... I too may need such pity; and that some other like you - and equal cause of anger - may deny it to me!
Ela ama mesmo o Jonathan, apesar de estar "ligada" - na falta de palavra melhor - ao vampiro, por ter bebido o sangue dele, e ele o dela: 
I can tell you now, whilst the sun is coming up; I may not be able again. I know that when the Count wills me I must go. I know that if he tells me to come in secret, I must como by wile; by any device to hoodwink - even Jonathan.
Olha só:
Then I shall tell you plainly what I want, for there must be no doubtful matter in this connection between us now. You must promise me, one and all - even you, my beloved husband - that, should the time come, you will kill me. (...)
When you shall be convinced that I am so changed that it is better that I die that I may live. When I am thus dead in the flesh, then you will, without a moment's delay, drive a stake through me and cut off my head; or do whatever else may be wanting to give me rest!
E aí, agora acredita que ela não quer trocar o bonzinho pelo bad boy e muito menos compartilhar da sua existência?

Ah, sim, outro mito: Van Helsing não é um matador de vampiros expert. É só alguém que acredita em coisas duvidosas - ele passa um bocado de tempo tentando convencer o Dr Seward a acreditar no inacreditável -, mas, no fim, gente como a gente. Aliás, todos eles são, ninguém é excepcionalmente nada - exceto o próprio Conde, é claro.

Nossa, isso de escrever vicia. Pra quem não ia falar sobre o livro, e depois decidiu só fazer algumas observações, já tem coisa demais - e o pior é que não falei tudo que penso sobre ele. Quem sabe outra hora eu desenterro esse diário de novo.


4 comentários:

  1. Rapha, vc leu mesmo esse clássico...
    eu tb li e vc tem razão eu leio por ai o pessoal fala muita besteira, ao invés de ler.


    Eu li isso tb, que ela se apaixonou pelo vampi, apesar q o pessoal é doido torce pelo vampiro, vai ver q é isso, ou então muito acostumados com os vampiros modernos. (hehe)
    Vai entender...
    Menina e essa sua sacada sobre o Van Helsing, realmente é isso pelo menos nesse clássico Bram Stoker.


    Mas vc já viu o filme de vampiros onde o Van Helsing é o herói da parada, acho que as pessoas falam isso pensando nesse filme q não tem nada a ver c/ a obra do Bram.


    Valeu vc ter feito esse esclarecimento aqui, no seu espaços, separando alhos de bugalhos.
    Adoro essas expressões antigas (hehe)


    abç e boas leituras!

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  2. Pois é, tem muita gente que adora falar sobre ele sem conhecer, né?


    Sim, sim, ainda mais no boom vampiresco dos últimos tempos, aí acham que é tudo igual e falam bobeira :)


    Aham, é aquele com o Hugh-alguma-coisa, né? Eu vi sim, lá ele é o bonzão-sabe-tudo-mata-todo-mundo-e-salva-o-mundo rs. Outra coisa que adoram fazer é colocar a Mina como irmã do Jonathan...


    Hahaha, eu também acho bacana rs


    Bjs!

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  3. A Mina como irmã do Jonathan.
    Irmã é demais ela é a noiva e depois esposa. o.O
    Qual a dificuldade de fazer o terror nos filme, baseado na obra original mantendo aspectos da obra original?


    O filme, poderia ser um aliado das pessoas que não vão ler o livro.


    Legal a gente ver filmes pelo menos com a essência. Exemplos, p/ citar alguns: E "O Vento Levou" , simplesmente perfeito, todas as falas (diálogos) do livro estão no filme, sem contar que a escolha dos atores ficou fiel em características físicas e personalidade.
    Orgulho e Preconceito, a adaptação com a atriz (Keira Knightley).
    O Morro do Ventos Uivantes o de 1934, porque as outras adaptações não ficaram boas não. Na minha humilde opinião. Esse filme ficou maravilhoso, tanto como a obra da autora, Emily Bronte.
    Bjk

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  4. Ah, eu não sou muito ligada em filmes, os poucos que vi baseados em livros não eram muito fiéis mesmo. É bom saber que tem alguns que se salvam - ainda há esperança rs.
    Sobre a adaptação, vc tem razão, a gente até entende que tem coisa que não "cabe" no filme, mas não precisa mudar totalmente a história, né? :)
    Eu gosto bastante de O Morro dos Ventos Uivantes também, faz tempo que li, mas tem muitas coisas que ficaram marcadas (não vi nenhum dos filmes). Quem sabe eu releio e falo um pouco sobre o que penso sobre ele aqui no blog mais pra frente...
    Bjs

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