domingo, 24 de junho de 2012

A arte e a ciência de memorizar tudo – Joshua Foer

O que você comeu ontem? Cadê suas chaves? O controle remoto da tv? E o telefone móvel (não vai me dizer que você vai ter que ligar pra ele pra encontrá-lo... de novo)? E pra que mesmo que você abriu a porta da geladeira?

Pois é, cada vez mais temos a sensação de lembrar cada vez menos. E, pra dizer a verdade, precisamos lembrar cada vez menos (quantos números de telefone você sabe de cor? Posso até ouvir você dizendo: "Pra quê? Salvo tudo no celular").


É, duvido que você nunca tenha jurado de pé junto, depois de uma prova, que nunca viu aquilo na vida (esse(a) prof(a) é louco(a)!) só pra depois achar alguma anotação sobre o assunto perdida no meio de um caderno qualquer.

Agora, os nomes dos 151 pokemóns você nunca esqueceu, né?


Por que será que essas coisas acontecem?

É sobre isso, e muito mais, que Joshua Foer fala em A arte e a ciência de memorizar tudo.

Antes de mais nada, vou dizer o que o livro não é (pra que ninguém venha com pré-conceitos): esse não é mais um "livro de autoajuda cafona" tentando ganhar dinheiro às custas do caráter ocultista e místico que tem sido atribuído à memorização atualmente (o Joshua fala sobre isso também - como o modo que enxergamos a memória se modificou ao longo do tempo e o preconceito que temos em relação à ela hoje em dia).

Agora, quanto ao que o livro é, A arte e a ciência de memorizar tudo é isso mesmo que o nome diz: a arte (praticada pelos campeões de memória capazes de recitar 252 algarismos aleatórios com a facilidade de passar o próprio número de telefone) e a ciência (desenvolvida por diversos pesquisadores que estudam desde pessoas comuns que tentam aumentar sua capacidade de memorização, aos casos clínicos de lesões cerebrais que culminaram em falta ou aumento da memória do paciente) de memorizar tudo.

É uma reportagem gigante, que poderia ter saído do discovery, da super interessante, da galileu... enfim, não é um manual de técnicas aumente-sua-memória-sem-esforço (até porque isso - o "sem esforço" - não é possível), que, sem dúvida, agrada os curiosos de plantão (como eu).

Com uma linguagem irreverente, divertida (não é enfadonha em nenhum momento), Foster apresenta fatos relevantes àquilo que se passa em nossas cabeças sem que nos demos conta - e tudo com embasamento histórico e científico (e devidamente referenciado no final), mas sem a linguagem cansativa do tecniquês.

Aliás, o Joshua viaja pra caramba (lembrou alguém que eu conheço...) pra contar sua história - que começou com uma pesquisa no Google e terminou com sua participação no Campeonato de Memória dos Estados Unidos

A leitura (como ela se modificou ao longo do tempo - principalmente pós Gutemberg -, o modo como lemos, o que retemos, como o próprio livro se modificou...) também é abordada.
Se o objetivo da leitura fosse apenas obter conhecimento, ela talvez fosse a menos eficiente atividade individual à qual me dediquei. Posso gastar meia dúzia de horas lendo um livro e ter apenas uma noção por alto do que se trata. Todos esses fatos e histórias, e mesmo o material interessante o suficiente para merecer destaque, têm o hábito de me impressionar por um breve momento e de depois desaparecer sabe-se lá onde. Há livros na estante que nem sequer lembro se li ou não.
(alguém mais se identificou?)

Após conhecer alguns dos atletas mentais, Foer se sente tentado a aprender suas técnicas (quem mais não sentiria o mesmo?) apesar de um pouco cético (meu detector de besteiras também apitou fortemente), e começa sua jornada em busca do que era apenas mais um clichê pseudo-científico e do que não era. Ao longo do livro, conduz-nos através de suas descobertas.

Por exemplo, você sabia que não existe memória fotográfica? E que Mark Twain praticou o atletismo mental?

Ah, Joshua também inclui vários casos - como os de S, o homem que nunca esqueceu nada, EP, que não se lembra de nada anterior ao seu pensamento atual (literalmente), e Kim, que serviu de inspiração para o filme Rain Man.

Outra coisa interessante tratada no livro é a forma como aprendemos. Isso foi especialmente algo que me fez pensar.

Ao iniciar meu aprendizado no piano, tocar requeria um certo esforço, inclusive, para tocar a tecla certa. Principalmente quando eu precisava tirar a mão do lugar para tocar uma oitava acima, por exemplo - não conseguia não olhar onde eu estava colocando meus dedos. Com o passar do tempo, comecei a perceber que isto se tornou automático - hoje em dia, não preciso me preocupar, os dedos vão sozinhos para os locais certos, não há necessidade de tirar os olhos da partitura (se você não toca nenhum instrumento, pense em como foi que aprendeu a digitar - o mesmo ocorre).

Cada um desses estágios de aprendizado é descrito no livro. Foer também explica porque atingimos um teto - um nível de performance que parece intransponível, mas que é possível de ser ultrapassado (experts em qualquer coisa fazem exatamente isso - não se deixar limitar pelo teto - todo o tempo) - e como podemos transpô-lo, o que me fez reavaliar minha forma de estudo, não só na música, mas em tudo.




Nota 1: Eu esqueci de por no post que o título original é Moonwalking with Einstein: The Art and Science of Remembering Everything, a parte "cortada" na tradução só faz sentido depois que você fica sabendo quais as técnicas que eles usam para decorar coisas (como a ordem de um baralho).

Nota 2: Caso alguém se interesse, aqui tem uma entrevista da Época com o autor.

8 comentários:

  1. Adorei a sua resenha, muito mais do que eu acho que gostaria desse livro ><
    De qualquer forma, fiquei bastante curiosa quanto a essa leitura. A minha memória é algo risível que beira ao ridículo e ao inacreditável - aliás, comecei a escrever resenhas justamente como um exercício de memória (o que me ajudou a melhor, ao menos um pouco).
    Só achei o livro caro (ao menos na Saraiva está R$ 39,90) >< Mas se um dia eu o encontrar em um preço comprável, darei uma chance a essa leitura :)

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  2. Hahaha, obrigada :) Acho que o título deixa um pouco de "pé atrás" - por isso que expliquei antes o que o livro "não é"... ah, e como você gosta de saber - e eu esqueci de por no post - o título original é "Moonwalking with Einstein: The Art and Science of Remembering Everything", a parte "cortada" na tradução só faz sentido depois que você fica sabendo quais as técnicas que eles usam para decorar coisas (como a ordem de um baralho).

    Aí é que tá, Nanie, nossa memória é melhor do que a gente pensa, e a de todo mundo é mais ou menos igual (o mágico número 7 pra todos, como dito no livro). Acontece que tem algumas formas (truques, por assim dizer) de a ajudarmos - que é o que os tais dos atletas mentais fazem.

    Ah, eu realmente gostei, não parei de falar sobre o livro a semana inteira e tudo eu comentava (minha mãe, coitada, teve que ouvir caso por caso, ainda bem que ela não liga e está lendo mesmo assim) - acho que dá pra perceber pelo tamanho do post, né? rs. Mas isso sou eu, então sei lá... haha
    Pois é, essa é uma das coisas que me fez criar o blog também - lembrar o que eu achei de determinado livro, se eu gostei ou não, algumas das coisas que achei interessantes ao ler... e ajudam sim, você tem razão (e quando não, é só voltar aqui e "colar" rs).
    Ih, na saraiva tá caro mesmo... no buscapé (agora) o menor preço é R$26,01 xD

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  3. Ah, eu adoro saber o título original *-* Não faço ideia do porquê da escolha desse título, mas adorei essa parte do "Moonwalking with Einstein" - me deixou um tiquinho mais curiosa para ler o livro >< hahahahaha


    Seria muito bom saber como utilizar melhor a minha memória >< Quero conhecer esses truques.


    Sempre que eu me empolgo muito com uma leitura, também saio por aí falando dela com todo mundo >< hahahahah A minha sorte é que minha mãe também não liga de saber, então sempre conto tudo para ela :)


    Ah, o preço pelo buscapé até que está melhor =D

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  4. O original é mais legal mesmo, mas em português ia ficar estranho, neste caso até entendo a editora ter cortado ^^


    Isso depende de pra que você quer, pra cada tipo de coisa que eles querem decorar usam um jeito diferente... e nem todo mundo faz da mesma forma :)


    Sim, tem hora que não dá pra controlar, né? haha Aí é só escolher a pessoa certa pra isso (ainda bem que tem gente que não liga!).

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  5. Só lembro dou meu número de celular e olhe lá Hahahah Mas , é verdade, eu lembro do nome dos 151 pokémons. Até pouco tempo atrás eu lembrava da ordem deles também, de forma que se alguém dissesse 47 eu gritaria "Parasect!".


    COMO ASSIM NÃO EXISTE MEMÓRIA FOTOGRÁFICA? TEM QUE EXISTIR! É um sonho antigo meu ter um amigo com memória fotográfica. Na verdade, o sonho real é eu ter memória fotográfica mas já que não tenho...


    Não sei se tem a ver com memória mas isso de "pegar o jeito" de fazer as coisas chama-se conhecimento tácito. Ganhamos isso com prática e nós mesmos não sabemos explicar como acontece. Como digitar, por exemplo. A gente simplesmente... digita. Como se nosso corpo estivesse acostumado.


    Gostei do seu texto, me fez pensar que eu devo dar mais atenção a livros desse tipo e não só ficções. Acho que o único que li parecido com esse foi "Sincero" do Jurgen Schneider e não me arrependi. talvez eu leia esse aí, talvez.


    PS: O comentário saiu. Rá!

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  6. Eu sabia alguns (do lab, do trabalho da minha mãe, de algumas pessoas...), mas agora só de casa (além de ser de casa, é MUITO fácil, não tem como não decorar) e o celular (uma vez eu esqueci porque quase não usava, aí tive que ressuscitá-lo e decorei de novo).
    Haha, eu também nunca esqueci os pokémons, sabia falar na ordem, mas não igual vc, que sabia dizer qual era qual número rs.

    É sério! Quem não queria, né?


    Aham, é isso mesmo. Tem um trecho lá no livro que explica a curva de aprendizado pela qual passamos, as partes que vem antes e depois do conhecimento tácito ^^


    Eu tento variar, na medida do possível, e esse livro veio em boa hora, estava meio enjoada de ficção e sem conseguir ler quase nada (ressaca monstro!). Vou dar uma olhada nesse "Sincero" também.


    PS: hahaha, só vc mesmo :)

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  7. não consigo memorizar nada , estou tentando ler um livro e tenho que aprender ate os detalhes.
    mais e impossivel !!!! também já li um livro de memorização mais não aprendi nada tinha uma parte que falava sobre uma tal lei de ''JOST'' dizia que não adianta ler um livro dezenas de vezes mas se vc ler ele bastante mais com intervalos de 10 a 05 min. vc aprende muito mais. Fiz isso mais não deu CERTOOO !!!!

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  8. Este livro realmente não é um livro de técnicas, o autor comenta algumas, mas você não vai aprender a decorar um livro se chegar a lê-lo...
    É mais pra apresentar como funciona esse universo da memorização, mostrar que é possível qualquer pessoa fazer o que eles fazem, contanto que use as técnicas certas e treine bastante.



    É, dentre as técnicas de memorização as únicas que eu acho que valeriam a pena serem aprendidas são as usadas para decorar textos.
    Dessas, a única que eu conheço é a do John Place (http://www.johnplaceonline.com/study-smarter/how-to-memorize-anything/), mas ela é meio na "força bruta" e eu nunca tentei pra ver se funciona para mim. Se você tentar, me conta o que achou depois :]


    Pelo que me pareceu, esses "atletas mentais", em geral, aprendem os truques uns com os outros - um mais treinado acaba "adotando" outro como pupilo.
    O único brasileiro, que eu saiba, que é um desses atletas é o Alberto Dell'isola - eu comentei um livro dele sobre memorização aqui no blog, mas eu não gostei muito dele, não... além disso, no livro ele não ensina a parte de memorizar textos, apesar de dar uma boa explicação sobre como decorar números (tem uma tabela com imagens prontas para o leitor decorar - coisa que eu não fiz, porque, confesso, acho um tanto quanto inútil decorar tudo aquilo para poder decorar números - mais fácil anotar mesmo).

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