terça-feira, 12 de junho de 2012

Pequena Abelha – Chris Cleave

Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver. Talvez eu fosse à sua casa no fim de semana e então, de repente, como sou muito inconstante, eu iria visitar o homem da loja da esquina – mas você não ficaria triste, porque estaria comendo um pãozinho doce com canela ou tomando uma Coca-Cola gelada, e nunca mais pensaria em mim.

Pequena Abelha é uma menina nigeriana que muda a vida de uma família inglesa. Sarah é uma mulher inglesa que muda a vida de uma família nigeriana. "Pequena Abelha" é um livro que muda a vida de quem quer que leia suas páginas.

O livro intriga antes mesmo de ser aberto, já que mal tem uma sinopse: "Não queremos lhe contar o que acontece neste livro. É realmente uma história especial, e não queremos estragá-la". A forma de divulgação escolhida foi inusitada e instiga a curiosidade do leitor (se ainda não foi o suficiente para deixá-lo curioso, a contracapa completa: "Depois de ler este livro, você vai querer comentá-lo com seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece."). 

Apenas jogada de marketing? Talvez. E se, em vez de todo esse mistério, estivesse escrito: "este livro conta a história de uma menina nigeriana refugiada na Inglaterra"? Seja sincero: você leria um livro sobre refugiados africanos? Quantas pessoas o fariam?

Mas é aí que está o engano. “Pequena Abelha” fala sobre uma menina nigeriana refugiada na Inglaterra. Só que não é apenas isso. Nem de longe.

É um livro que fala sobre escolhas, todos os tipos de escolhas - desde as que permeiam o dia-a-dia, às que, uma vez feitas, assombrarão para sempre. 

Fala sobre crescer. Sobre culpa, perdão, esperança, persistência, remorso, superação. Fala sobre o presente. Fala sobre o futuro. Sobre a diferença entre o pensar e o agir. 

Fala sobre como uma decisão não afeta só quem a toma, mas implica nos outros. Sobre como uma pessoa, algumas vezes, não precisa fazer um grande gesto para salvar a vida de alguém. E sobre como, algumas vezes, precisa. 

Assim é "Pequena Abelha".  Cada capítulo, cada página, cada parágrafo, cada linha, faz pensar. Faz o leitor olhar para dentro de si mesmo. É impossível ficar indiferente.

É um livro dramático, mas que também possui trechos que fazem rir - e, quando você percebe que está rindo, para de rir, porque, afinal, você não devia estar rindo daquilo.

Sim, a história de Sarah e Pequena Abelha é perturbadora.

Mas não se engane pelo marketing: é uma história comum, não há nada surpreendente em extremo - apenas mais uma história no meio de todas aquelas que estão acontecendo agora mesmo, mas que as pessoas não querem ver ou ouvir, e, quando alguém tenta contar, colocam os dedos nos ouvidos e cantarolam, ou, melhor dizendo, fecham o jornal, mudam de canal e seguem com suas vidas.

Quem conta essa história é Pequena Abelha e Sarah, de forma alternada - cada capítulo narrado por uma delas. A partir disso, é possível conhecer as diferenças culturais entre as duas, nem tanto na forma de falar, já que Pequena Abelha aprendeu o Inglês da Rainha para sobreviver na Inglaterra, mas na forma de agir, pensar e lidar com o mundo.

Chris Cleave fez um bom trabalho e sua escrita é bela, mesmo que sua história não seja. Não no sentido em que as pessoas estão acostumadas, pelo menos. 

Além disso, é possível notar a preocupação do autor em adequar cada fala e cada ação dos personagens, deixando o livro mais real, mais plausível.

O quesito "tradução" desperta alguns questionamentos, entretanto. Sem conhecer o original, é difícil avaliar exatamente o sucesso do autor, que deve ter empregado diferentes formas de inglês (inglês inglês, inglês nigeriano, inglês jamaicano). Em português, as variações consistiram em escrever corretamente o "inglês inglês" e colocar muitos erros (do tipo que, às vezes, incomoda a leitura) nas falas de personagens jamaicanos, por exemplo. Também alguns termos e expressões causam dúvidas (como: "eu sinto muito" provavelmente era "I'm sorry", então, será que não na verdade o sentido não era "me desculpe"?).

Mas são questões menores, que não prejudicam a narrativa. A leitura é interrompida, sim, mas não é por isso. Quando alguém para de ler, o faz simplesmente para divagar e/ou digerir o que foi lido.

Porque "Pequena Abelha" é belo como uma cicatriz.


Nota: coloquei mais algumas citações no meu tumblr, caso alguém queira ler, pode o fazer aqui. Não é necessário se preocupar com spoiler - quase todas foram retiradas das primeiras páginas, quando decidi parar de anotar porque, caso continuasse, acabaria copiando o livro inteiro.


2 comentários:

  1. Já li Pequena Abelha e gostei muito do livro, nem tanto pela trama mas pela escrita do autor que me conquistou tanto como Abelhinha quanto dando voz à Sarah. E o incrível é que é um homem narrando perfeitamente como duas mulheres!


    Confesso que não gostei do final, aberto DEMAIS, sem um paradeiro decente para nenhum dos personagens.


    Achei nesse livro piadas ótimas! Queria que todo mundo o lesse, vale muito a pena e realmente não dá pra contar muita coisa.

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  2. A escrita dele é ótima mesmo :) Além de me fazer divagar em cada pedacinho pelo que era dito, também me fazia divagar pelo que era dito: as escolhas de palavras dele parecem ser perfeitas. Acho que qualquer um que queira escrever algo deveria ler Pequena Abelha.


    Também achei, mas depois que parei pra pensar, não sei como ele poderia ter feito de outra forma...


    Sim! Não é só drama puro - é, mas ele consegue colocar humor junto! É, ele devia estar na lista de "livros que vou ler antes de morrer" de todo mundo.

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