quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Starters – Lissa Price

- Então, todo mundo que conhece o Malthus sabe a tal da história de que a oferta de alimentos cresce em progressão aritmética, enquanto o número de pessoas cresce em progressão geométrica (o que, na prática, para quem não era muito assíduo nas aulas de matemática, significa que, um dia, não vai ter comida pra todo mundo. Daí, a necessidade de um controle de natalidade por parte da população - não dá pra ter filho a torto e a direito ou seus bisnetos vão morrer de fome.


Malthus também falava que a natureza se encarregaria de uma parte do problema, por meio de epidemias, catástrofes naturais e até mesmo de guerras.

Depois dele, várias outras teorias surgiram e muita coisa já se falou a esse respeito, contradizendo ou defendendo suas ideias.

- Mas, o título do post não é o nome de um livro? Por que raios você tá falando sobre um cara ultrapassado

- Bem, porque Starters se encaixa exatamente na teoria desse cara, mesmo que ele tenha vivido há uns 300 anos (ainda acha que geografia é inútil?). Só que, antes de entrar na história, quero lembrá-lo de mais uma coisinha, agora lá da biologia.

- Cê tá brincando! Agora tenho que saber biologia também? 

- *suspira* Você sabe quais os grupos de risco para vacinação? 

- Ah, essa é fácil, com todo mundo falando tanto da gripe do porco A (H1N1): crianças, idosos, gestantes  e pessoas com algum tipo de doença crônica #soudemais. 

- Muito bem, é isso mesmo. Agora sim, deixa eu contar o que aconteceu no mundo futurístico de Lissa Price: uma epidemia. Mas não uma epidemia qualquer. Uma epidemia provocada por uma guerra. Uma guerra biológica não se preocupe não vou entrar no assunto nem pedir para você diferenciá-la da guerra química.

*começa o monólogo ensaiado*

O motivo do conflito, bem, nem eu sei e olha que li o livro. O que eu sei é que em determinado momento, quando as forças estavam equilibradas - ninguém conseguia ganhar -, um dos lados também não me pergunte quais são eles, ou quem venceu, porque também não sei resolveu mandar um presentinho aéreo pro outro, que, apesar de ter conseguido uma vacina, só imunizou os grupos de risco - pessoas abaixo de 20 anos e acima de 60 (e os outros? Bem, parece que a autora se esqueceu deles) -, o que provocou a morte de toda a população na idade intermediária .

Aí a população mais velha - os Enders - teve que deixar a aposentadoria de lado e voltar à ativa, já que, com os avanços tecnológicos, as pessoas passaram a viver até seus 200 anos mais uma vez, não me pergunte como, já que a guerra devastou grande parte da população e do sistema social existente antes. A consequência disso foi a criação de leis que impediram os menores (a maioridade na história é aos 19 anos) de trabalhar oficialmente. Ah, e eles também não estudam, nem nada assim. Os menores - Starters - que possuem parentes vivos (em geral, avós) foram adotados por estes, e os que não, bem, são mandados para Instituições onde são forçados a - olha só - trabalhar. Sim, eu ainda estou procurando o sentido disso. Os que conseguem não ser capturados pelos Inspetores - que possuem armas de choque e não têm medo de usá-las - (subsobre)vivem nas ruas, com o que conseguem achar (lutando até mesmo por água).

Ainda que vivam até os 200 anos, os Enders não escapam das consequências de sua alta idade - seu corpo não é mais o mesmo. E é aí que entra um grande avanço da ciência moderna, na empresa Prime Destinations, mais conhecida como banco de corpos. A Prime conseguiu um feito extraordinário: com a quantidade certa de money, bufunfa, verdinha os idosos podem alugar um corpo de um doador adolescente.


É isso aí. Cansado das dores/falta de agilidade/rugas/gordura acumulada nos lugares errados? Escolha um corpo entre os modelos disponíveis e seja jovem novamente. Não é magia, é tecnologia.

Extraoficialmente (eles não podem trabalhar, lembra?), jovens necessitados, com a promessa de receber uma quantidade exorbitante de dinheiro após apenas três alugueis, assinam um contrato com a empresa para doarem seus corpos. Para isso, passam por uma cirurgia, em que têm um chip implantado em seus cérebros, através dos quais são conectados aos inquilinos por meio de um programa. Enquanto outra pessoa está em seu corpo, o doador dorme. O corpo do inquilino também fica adormecido enquanto sua mente está passeando por aí.


É, meio que a la Matrix mesmo. Uma das "jovens necessitadas" é Callie, que vive nas ruas com seu irmãozinho doente, Tyler, e seu amigo Michael, e que acaba entrando no programa pelo bem do irmão. Quando Callie acorda fora da Prime Destinations, e ainda por cima ouvindo vozes, ela precisa descobrir onde é que acabou se metendo.

É impossível não comparar esta distopia com muitas coisas. Já citei Matrix, mas a coisa vai muito além. E nem estou falando do óbvio A Hospedeira (em que uma raça de alienígenas ocupa o corpo dos seres humanos), porque não é realmente parecido fora da questão dividir-o-corpo, nem de O Pacto (em que o grande número de pessoas - que tiveram suas vidas prolongadas ao ponto de não morrerem mais, segundo o que ouvi dizer - leva à proibição do nascimento de filhos), já que não li e, portanto, não tenho como comparar.

Já adivinhou, né? Estou falando mesmo do destacado na capa: Jogos Vorazes. Não pela premissa, mas pelos elementos presentes na história, por assim dizer. Explico. 
Situações desumanas para crianças: confere.
Irmãozinho a se proteger: confere.
Protagonista de excelente pontaria: confere.
Menina divida entre o amigo antigo e o carinha novo: confere.
Garotinha esperta também vítima do sistema que a protagonista conhece e quer proteger: confere.
Símbolo com as mãos: confere.
Ritual de beleza que transforma a menina na coisa mais perfeita do mundo: confere.
Pessoas sem noção mas boazinhas que não percebem que o que fazem é errado: confere.
Flor "especial": confere.
Carinha coadjuvante com rímel preto(!): confere.
Enfim, acho que já deu pra entender.

O mais esquisito é que o livro se passa apenas um ano depois do fim da Guerra dos Esporos. Vou repetir: U-M-A-N-O. Como, me diga, por favor, acontece tudo isso em UM ano? Como, em UM ano, ninguém acha estranho alugar corpos de adolescentes, ou trancafiá-los nas Instituições e forçá-los a trabalhar mesmo que tenham feito uma maldita lei que os impeça de fazer isso, ou deixá-los morrerem de fome por não  terem parentes vivos?

Não, não acredito. É uma pena que aquela premissa tão interessante "escorra por água abaixo" com o virar das páginas. Não que a leitura não "engrene", você vai lendo e lendo e lendo e acaba rapidinho, sim até porque as letras são grandes. Mas, a partir de um ponto, não tem como não enxergar os buracos. A curiosidade de saber o-que-vai-acontecer-agora também não desaparece, só que é acompanhada pela esperança de por-favor-dê-um-jeito-de-consertar-isso-tudo.

As resoluções dos conflitos também deixam muito a desejar: é tudo tão simples. 

Só que o final, bem final mesmo, consegue compensar. Não exatamente por ele, mas por aumentar a tal da esperançazinha já citada, além da curiosidade - o gancho para o próximo foi bem feito. Só espero que a Lissa seja mais original, não se prenda a outros elementos de sucesso, e não estrague tudo sem possibilidade de volta.

Sobre os personagens, o destaque é, sem dúvida, o Velho. Achei que também faltou um desenvolvimento maior da relação Callie-Tyler-Michael e algumas explicações principalmente por parte do último: é como se fosse falado somos-amigos-somos-amigos-somos-amigos num mantra, até o leitor acreditar, mas não dá pra sentir isso realmente.

Eu sei que meu monólogo já durou uma eternidade, mas queria comentar uma última coisa sobre o fim-fim: a Callie não tem um pingo de crise de consciência, não é possível aquilo (aquilo = spoiler)!




PS: O atraso nos posts é #CulpadoJohnGreen.

7 comentários:

  1. Estou com esse livro aqui em casa e quero muito ler! Adorei sua aula, quero dizer, resenha :)

    (Parece que apesar de interessante, o livro deixou vários furos, né?!)

    ResponderExcluir
  2. Hmm... Pela sua reply ontem, deu pra entender que você não morreu de amor pelo livro. Eu olho pra ele com desconfiança desde que ouvi falar do lançamento (tanto que pedi pra nem receber da parceria, já que não pretendo ler tão cedo). Só não imaginava que houvesse tantos furos! Já vi resenha de gente chata que gostou, então pensei que fosse, pelo menos, bem construído. Sei lá, só lerei se o próximo for muito, muito bom.

    ResponderExcluir
  3. Obrigada, Nanie. E leia sim, quero saber o que você vai achar :)

    Ah, é razoável pra passar o tempo, mas é praticamente uma peneira mesmo :P

    ResponderExcluir
  4. É bem isso mesmo... Poxa, eu achei a premissa bem interessante, por isso comprei logo - estava bem curiosa. Mas digamos que, se eu fosse dar um título pra uma resenha dele, seria: "Muito barulho por nada" :P
    Basicamente uma peneira. Não sei se a Lissa consegue consertar no próximo, admito que fiquei curiosa por causa do final deste, só não sei se vou pagar pra ver...

    ResponderExcluir
  5. Raphaella, eu lerei com certeza, porque já tenho o livro aqui em casa e estou bastante curiosa sobre essa história! Mas é realmente uma pena saber que a autora deixou tantos furos...

    ResponderExcluir
  6. Passa na frente pra gente poder conversar melhor ;)

    ResponderExcluir

Não esqueça de comentar! Adoro saber sua opinião! :)
Todos os comentários são respondidos e visitas retribuídas.
Não é necessário escrever: visite meu blog *link do blog* - na verdade, isso desestimula a minha visita.
Obrigada e volte sempre!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...