quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Metamorfose – Franz Kafka

Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado de costas sobre a própria couraça, e ao erguer um pouco a cabeça enxergou seu ventre marrom, acentuadamente abaulado, com profundas saliências arqueadas, sobre o qual o cobertor, quase escorregando, estava prestes a cair. Suas muitas pernas, terrivelmente finas em comparação à largura do corpo, agitavam-se desamparadas diante de seus olhos.

Quais seriam suas primeiras preocupações se você acordasse transformado num inseto gigante? As de Gregor foram como conseguir sair de baixo do cobertor a tempo de pegar o trem pro trabalho. Pois é. Um tanto quanto tragicômico, né? Só que não é bem assim. 

Esse "ar" inicial não chega nem perto do que Kafka consegue com A Metamorfose. Não é à toa que este é um dos livros mais aclamados por aí (e não só por intelectualóides e filósofos de mesa de bar) e se tornou um clássico para todos os tempos - que provavelmente será lido enquanto existirem pessoas na Terra.

Lembra que o próprio Kafka falou que precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos entristeçam profundamente, como a morte de alguém a quem tenhamos amado mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas isoladas de todos, como um suicídio? Que um livro deve ser o machado para o mar enregelado que temos dentro de nós? Então, é bem isso o que ele faz.

Mesmo que tenha sido publicado pela primeira vez em 1915 (apesar de ter sido escrito em 1912), o livro continua bem atual: é possível identificar várias questões pertinentes à vida moderna.

Se não tivesse de me conter por causa dos meus pais, já teria me demitido há muito tempo, teria me dirigido ao chefe e dito a ele o que penso do fundo do coração. Ele cairia da escrivaninha! Também, que maneira estranha é essa de sentar-se sobre a escrivaninha e falar de cima para baixo com o funcionário (...)

Era Gregor quem provia o sustento da casa. Sua família - pai, mãe, irmã - contava com o que ele providenciava, estando suportados por, e, até mesmo, acomodados com, essa situação. Com a transformação de Gregor em inseto, a estrutura familiar precisa ser modificada - Gregor é que, agora, torna-se o parasita. E os outros integrantes da família não reagem muito bem à nova ordem social vigente.


Além disso, através das mudanças físicas sofridas por Gregor, a própria humanidade é questionada. A transformação de Gregor é tratada como um simples resfriado, não sendo questionada sua possível causa, apenas as consequências.  O horror, a repugnância que sua aparência causava, a mudança em sua voz - que passa a não ser mais compreensível depois de um tempo -, não impedem que resquícios de sua humanidade ainda sejam conservados, nem aniquilam sua consciência.

Poderia considerar-se ele um animal, já que a música o comovia tanto?

A linguagem do livro é simples, mas são abordadas questões complexas e perturbadoras, sendo retratado o comportamento humano em meio a uma crise - há um choque de realidade ao mostrar como as pessoas, em geral, agem num caso desses. Obviamente, não na transformação literal de alguém em inseto. Mas, digamos, no caso de alguém ficar doente ao ponto de necessitar de cuidados todo o tempo (como no caso de pacientes muito debilitados e/ou terminais) ou de idosos que passam a precisar de ajuda por causa de sua alta idade, será que as pessoas próximas agem muito diferente da forma que família de Gregor agiu? E como será que a pessoa, indefesa, debilitada, se sente num caso desse? Pois é.

Kafka retrata a vida como ela é, com muitas metáforas, mas sem eufemismos.

No fim, a verdadeira metamorfose acontece não com Gregor, mas com o leitor atento.


4 comentários:

  1. Esse livro é incrível!! Como vc disse muitas metáforas...
    Se a voz dele estava mudando é porque como desempregado que Gregor passou a ser ele não tinha mais voz! (Ninguém mais se importava c/ ele ou com o que dizia)
    Ele mesmo em determinada altura disse que ele fez tanto, por toda família e sociedade já que era ativo, porém uma vez não trabalhando mais as pessoas tendem a ignorar e esquecer as coisas feitas antes...

    Um desempregado é uma coisa asquerosa foi o que entendi que o autor quiz mostrar com essa obra magnífica!!!
    Ri muito quando li esse livro, por ser bizarro, se não fosse trágico seria cômico.

    Quando leio um clássico  preciso entender a época da vida do autor, interesso-me e acabo por ler sua biografia. Além de gostar bastante de história, soube que se passou na bella Epoque e com todas as dificuldades que a Europa passou no pós guerra.

    O desemprego era enorme, identifico-me por que sou de um Brasil ditadura militar minha juventude sem computador e dificuldades enormes de estudos, só elite estudava.

    Meus irmãos mais velhos, muito difícil colocação profissional, enfim povo sofrido que éramos nesse Brasil ditadura.

    O fantasma do desemprego, apesar que Gregor simplesmente não quiz mais trabalhar e sustentar pai, mãe e irmã mostrando outro aspecto que é ficar na aba mas depois qdo a mordomia acaba todos se viram... Como pudemos constatar no decorrer do livro.

    Abç e boas leituras!!

    PS: Excelente obra que vc nos trouxe, esse livro tem muito a abordar...

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  2. Sim, sim! 
    Muito bem colocada a questão do desemprego - concordo com tudo que você falou!
    Mas também acho que podemos transportar para outras "esferas", por exemplo, a questão da perda da voz/desumanização é justamente por ninguém se importar mais com o Gregor (acredito que nem ele próprio), mas isso poderia acontecer por outras coisas (como velhice/doença), não só pelo desemprego, na minha opinião. Mas, sinceramente, eu acho que pra alguém passar a não se importar com outro por causa de algo assim é porque nunca se importou de fato. O mais triste é que isso é o que mais se vê por aí, né?

    Eu também ri, principalmente no começo (e nas descrições da "nova vida" do Gregor - como quando ele resolve andar pelas paredes/teto e se esconder debaixo do sofá) - como eu falei, bem tragicômico, só que não só isso :)

    Aham, concordo com você sobre os clássicos, mas eu também gosto de transportar pro "agora" - muitos deles se aplicam à época atual facilmente, ainda que não em todos os aspectos (e essa é uma das coisas mais interessantes neles, na minha opinião). Até porque crises não faltam hoje em dia (e é uma atrás da outra, principalmente na Europa) e o "clima" de pessimismo, crise existencial, desesperança e etc também é característico da sociedade contemporânea. 

    Outra coisa que achei interessante, mas não comentei no texto, é o comodismo: tanto da família quanto do próprio Gregor. Além disso, há uma sensação de impotência. E de adaptação/aceitação fácil das coisas - tudo vai sempre igual até que uma força externa (a metamorfose) vem e bagunça tudo, mas em vez de se indignar, Gregor se adapta e não se importa muito com sua nova situação (no começo fica preocupado com como vai trabalhar, mas depois deixa pra lá e passa a "curtir" sua nova vida), ele nem mesmo tenta entender o motivo de sua transformação...

    Tem muita coisa que a gente pode falar sobre esse livro! Não quis deixar o texto muito grande, e queria abrir espaço para comentários (eu nunca falo tudo o que acho, porque gosto quando as pessoas participam - é a coisa mais legal de ter um blog!), então resumi (bem!) o que pensei. E meu comentário já está quase do mesmo tamanho do post! haha
    Eu acho que "A Metamorfose" deixa mais perguntas que respostas. É pra ler e reler várias vezes, e a cada releitura a gente deve achar algo a mais pra pensar :) 

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  3. Raphaela, sim concordo, o mais legal mesmo tb tenho essa visão. Que o comportamento das pessoas nos clássicos dá para se comparar com as pessoas de agora. Apenas outra linguagem e outra época.

    Você se ressentiu do Gregor não ter se esforçado para mudar, entendo, tb eu, mas a meu ver o livro não é uma estória de se dar a volta por cima se levantar das cinzas, não.

    Para mim "Metamorfose" é a constatação de como o ser humano é e na pior maneira de ser.

    Quando no ensino médio nas aulas de literatura estudei sobre um poeta que infelizmente não vou lembrar o nome, mas vou pesquisar p/ me lembrar. Deve ser nacional ou português afinal era esses que estudávamos né? 
    Pois então, esse poeta era o poeta das desilusões com o ser humano, tudo que escrevia era coisas que pensava sobre o homem e mal, ele não confiava e nem acreditava no homem para ele tudo era interesse e más intenções. Como o professor dizia visão negativa do homem.

    Gregor que estava cheio daquele empreguinho de caixeiro viajante que não lhe dava satisfação alguma, e ainda quando chegava em casa via que seu pai mãe e irmã acomodados e não contribuíam e ficava esperando sempre por ele. Fez ele ter a atitude que teve. Depois ainda não quiz sair daquela situação talvez por gostar de ver que tudo se acertou com a família se virando bem. Além do mais não sei ao certo mas a impressão que tive era que ele não queria mais trabalhar como caixeiro viajante.

    Você se recorda da passagem do médico, ele diz mais ou menos assim: "que os jovens são assim inventam doença para não trabalhar??" "Ou fugir das responsabilidades"
    Pois então, outra coisa que me reportar a pais que tem muitos filhos, acreditando que esses filhos irão cuidar deles em idade de trabalhar. Percebe que isso era ideia recorrente no passado mas que hoje, eu pelo menos presencio muito isso ainda. Como assim ter muitos filhos vai melhorar as condição financeira?

    Raphaella, e a questão do inseto heim?? Quando lia tentava defini qual bicho que era... Muito legal porque o autor fez tudo para confundir e conseguiu porque eu tinha nítida certeza que era uma barata, depois achava com convicção que era um besouro...
    Incrível esse livro escrever por metáfora foi muito inteligente!!!

    Bjk

    PS: Estou lendo o clássico Grandes Esperanças, do Dickens outro autor incrível, logo colocarei no skoob. Na realidade estou de féria e viajarei p/ o sul sou do Rio. Então minhas impressões a respeito desse livro deve ser final do mês.

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  4. Sim!
    Ah, acho que não me expressei bem no comentário anterior: eu não fiquei ressentida, só quis dizer que o livro mostra bem essa resignação do ser humano mesmo :)

    Hum... será que você está pensando no Augusto dos Anjos? 
    (Um dos poemas dele:
    VERSOS ÍNTIMOSVês! Ninguém assistiu ao formidávelEnterro de tua última quimera.Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!O Homem, que, nesta terra miserável,Mora entre feras, sente inevitávelNecessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!O beijo, amigo, é a véspera do escarro,A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se a alguém causa inda pena a tua chaga,Apedreja essa mão vil que te afaga,Escarra nessa boca que te beija!)

    É, eu também fiquei intrigada com isso! Tinha ouvido (muitas) pessoas dizendo que era uma barata (inclusive em algumas edições existe a ilustração de uma barata na capa - o que vai contra o pedido do autor de que o Gregor-inseto não fosse desenhado), mas pela descrição no livro pensei em algum tipo de besouro também (apesar de que nem disso tenho certeza, já que ele fala que tinha muitas perninhas e besouro tem só 6...).

    PS: Eu tenho esse livro esperando na estante! Eu comecei a ler primeiro o "A tale of two cities" ("Um conto de duas cidades") dele, e gostei bastante (mas só li o comecinho). Já deu pra perceber que o Dickens, além de toda a "carga" cultural/importância histórica, sabe mesmo contar uma história!

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