quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Criança 44 – Tom Rob Smith

Ou por que eu demorei tanto pra ler esse livro?

Mas bastou a primeira frase pra eu não querer largá-lo mais.
Uma vez que Maria tinha decidido morrer, seu gato teria de se virar sozinho. Ela cuidou dele muito mais do que fazia sentido para um animal de estimação. Havia muito tempo ratos e camundongos tinham sido pegos em armadilhas e comidos pelos habitantes da aldeia. Os animais domésticos sumiram pouco depois.
Liev Demidov é um oficial do alto escalão da MGB que sempre possuiu uma fé inabalável no Estado. Foi muito bem treinado, física e psicologicamente, para seu trabalho - mais que um simples agente, era um herói, um investigador, um modelo.
O que o país mandasse, ele cumpriria prontamente. (...) Sua única ambição era de caráter geral: servir ao país, um país que tinha derrotado o fascismo e que dava educação e saúde, que trombeteava os direitos dos operários pelo mundo, que pagava ao pai dele - operário na linha de produção de armamentos - um salário quase igual ao de um médico. Embora o trabalho de Liev na Segurança do Estado costumasse ser desagradável, ele reconhecia que era necessário, pois era preciso proteger a Revolução dos inimigos externos e internos, dos que queriam solapá-la e dos que queriam que fracassasse. Para isso, Liev era capaz de dar a própria vida. E a dos outros.

Idealista, Liev acredita piamente nos benefícios da Revolução. Por isso, fazia o que tinha que ser feito. Quando o corpo de um menino é encontrado numa linha férrea, Liev é mandado para esclarecer o assunto: a família estava tão perturbada que acreditava que o terrível acidente sofrido pela criança tinha sido, na verdade, um assassinato.
Aquela histeria colocava em perigo uma boa família. Se os comentários infundados sobre assassinato não fossem reprimidos, poderiam se alastrar pela comunidade como erva daninha, deixando as pessoas inquietas, fazendo com que questionassem um dos pilares básicos da nova sociedade:
Não existe assassinato.
Poucos acreditavam realmente nisso. Havia falhas: era uma sociedade ainda em transição, ainda imperfeita. (...) os excessos sociais - os crimes - sumiriam até que a pobreza e a necessidade acabassem. Ainda não tinham atingido esse nível.(...) Mas as pessoas tinham de acreditar que estavam caminhando para uma situação melhor.

O denegrimento do regime tinha que ser combatido a qualquer custo. Dentro das paredes do Lubianka, a história era escrita - afinal, nunca um inocente foi preso.
[...] o Lubianka ocupava um lugar especial no imaginário das pessoas por ser onde eram julgados os acusados de agitação antissoviética, atividades contrarrevolucionárias e espionagem. Por que esse tipo de prisioneiro causava um medo diferente em todo mundo? Porque é fácil ter certeza de que jamais vai roubar, estuprar ou matar, mas ninguém pode ter certeza de não ser acusado de agitação antissoviética, atividades contrarrevolucionárias e espionagem, porque ninguém (...) jamais saberia direito em que consistiam tais crimes.
 Na Rússia Stalinista, a paranoia, o terror, a desconfiança, o medo eram generalizados. Sob a aparente sociedade perfeita, ninguém estava seguro.


Mas até que ponto os fins justificam os meios? 

E quando Liev começa a questionar, pode estar arriscando não só a sua vida, mas a de todos com quem se importa.

Criança 44 é um suspense histórico ambientado na Rússia stalinista que, sem dúvida, é uma grande propaganda antissoviética.

A fome, a tortura - física e psicológica -, os trabalhos forçados, a designação de pessoas para longe de suas famílias, o descontentamento, a negligência, os gulags, o medo.

Tom Rob Smith mostra vários aspectos sociais varridos para debaixo dos tapetes soviéticos.

Nota-se que a tão apregoada igualdade não é tão igual assim, também: melhores condições (como água quente - imagina tomar banho com água gelada em plena Sibéria?! brr...) vem com cargos mais importantes.

Mas então esse negócio deve ser MUITO chato, hein? Eu já dormia nas aulas de história, vou tirar é um bom cochilo se pegar esse livro pra ler!

MUITO pelo contrário! Isso tudo aí fica como pano de fundo, é inserido no meio da trama do livro, que é um suspense bem trabalhado. A curiosidade vai ganhar a luta contra os olhos fechando! Você só vai descansar quando a última página for virada. E vai procurar por mais.

Se for um curioso incorrigível, então, vai sair procurando a "verdade" por trás da história, e acabar (re)conhecendo um pouco da história russa. Inclusive na forma de um dos crimes mais chocantes da história da humanidade. Mas só recomendo que você faça isso depois de ler o livro.

Então, no próximo fim de semana, já sabe: desligue a TV e vá ler esse livro. Aproveite que você pode. Na Reversal Russa a TV desliga você.



4 comentários:

  1. Gosto bastante dessas histórias que aproveitam a "história real" para construir o enredo :)
    tp, fã de novela de época, sabe... huahua

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  2. Eu também gosto desse tipo de história, parece que dá uma certa "credibilidade", né? haha

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  3. Raphaella, caraca, o livro parece ser MUITO bom!!!! Só vou ter certeza de nunca me dar ao trabalho de ler a continuação, mas fiquei com MUITA vontade de conferir Criança 44.


    Beijos,
    Nanie

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  4. Leia sim, Nanie! É bem legal :]



    Bjs

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