sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Teorema Katherine — John Green

Depois de falar que eu leria até a lista de supermercado do John Green1, comecei a colocar isso em prática.

Só que a coisa não tava indo como eu imaginei.

Primeiro veio a Alasca. E hm...2
Aí veio a Margo. E eh...3

Mas então veio o Colin. E, finalmente, o alívio. E as risadas. E a sensação de achar um livro que faz... algo4. E nem foi pela história.

Gostei de O Teorema por muitas razões diferentes - desde aquelas que não sabemos expressar às mais óbvias.

Uma das razões óbvias foi descobrir que Colin era superdotado - não pela curiosidade que imagino que isso proporciona, mas pela identificação.

E, assim, o prodígio periodicamente incontinente5 acabou num consultório pequeno e sem janelas no bairro South Side, conversando com uma mulher de óculos de armação grossa, que pediu a ele que encontrasse padrões num conjunto de letras e números. E pediu que ele virasse polígonos ao contrário. Perguntou qual imagem não combinava com as outras. Fez uma série interminável de perguntas maravilhosas e isso fez Colin adorá-la.
[...]
A mulher de óculos de armação grossa chamou a mãe dele no consultório.
Enquanto dizia à Sra. Singleton que Colin era um gênio, um menino muito especial, ele brincava com blocos de madeira com as letras do alfabeto. Acabou com uma farpa no dedo enquanto rearrumava v-a-s-o em s-o-v-a – o primeiro anagrama que se lembra de ter feito.
A professora disse à Sra. Singleton que os talentos inatos de Colin deveriam ser encorajados, mas sem pressão, e advertiu-a:
— Você não deve alimentar expectativas exageradas. Crianças como Colin processam informações muito rapidamente. Elas demonstram uma capacidade admirável de se concentrar em suas tarefas. Mas as chances dele de ganhar um Prêmio Nobel não são maiores do que as de qualquer outra criança razoavelmente inteligente.

O caso é que quando eu era pequena, também fui parar na sala de alguém sendo testada. E também achei o processo divertido6. E também poderia ter adiantado a escola7, mas não fui colocada lá pelas mesmas razões que ele não foi. E também poderia ter adiantado a faculdade, mas preferi não fazer isso.

Mas, diferente de Colin, eu não queria ser famosa, nem ganhar um Prêmio Nobel8. E nunca estudei de verdade na vida9, nem pro vestibular10, nem na faculdade11. Só que eu também achava coisas interessantes12, e, talvez, tivesse sido um pouquinho mais como Colin se tivesse seu encorajamento13 (mas aí eu não seria eu, e eu gosto de ser eu, sinceramente).

Então esse livro só serve pra ex-prodígios-potenciais-desperdiçados14?

Acredito fortemente que não. Até porque não é exatamente disso que o livro trata. Certo, Colin é um prodígio, mas isso não é tudo que ele é. Ele também é, entre outras coisas, curioso15, apaixonado por livros16 e especialista em levar pés-na-bunda de garotas que atendem pelo nome Katherine17.

Então, depois de ser chutado pela Katherine XIX, Colin é convencido por seu único melhor amigo Hassan18a fazer uma viagem de carro sem destino certo pra tentar sair da fossa e, talvez, conseguir seu tão sonhado momento eureca.

Moral da história: em meio a fórmulas matemáticas, idiomas estrangeiros e piadas autodepreciativas, O Teorema Katherine consegue fazer (re)pensar algumas coisas - sejam elas quais forem.


1. Aqui.
2. Não é que eu não tenha gostado de Quem é você, Alasca. Eu gostei... das metáforas, das reflexões, das questões filosóficas... por assim dizer...; da história... em parte...; do labirinto, da moral... sem dúvida. Mas achei algumas coisas meio... hm. Não sei como explicar.
3. Não é que eu não tenha gostado de Cidades de Papel. Eu gostei... das metáforas, das reflexões, das questões filosóficas... por assim dizer...; da história... em parte...; da desidealização, da moral... sem dúvida. Mas achei algumas coisas meio... eh. Não sei como explicar.
4. Não exatamente um machado pro mar enregelado, mas ainda assim.
5. Nunca tive esse problema.
6. Não me lembro praticamente de nada, só sei que tinha uns jogos que eram as coisas mais legais que eu já tinha visto.
7. Minha mãe diz que eu sempre chegava de lá reclamando. Detestava ter que ficar fazendo bolinhas e risquinhos e sei-lá-mais-o-que que mandavam as crianças fazerem. Super entediante. Até porque eu já lia e escrevia bem antes de ir pra lá.
8. Mas eu queria, sim, fazer algo que pudesse ajudar o mundo de alguma forma, o que é totalmente cliché e idealista e ingênuo e me levou ao mesmo fim do romantismo: esmagada pelo realismo.
9. Pra mim tudo era extremamente fácil, mas (mesmo sem um Hassan pra me guiar - não que eu quisesse, ou precisasse - meu nível de simancol sempre foi maior do que o do Colin) eu aprendi que as pessoas não gostavam disso, então eu acabava deixando-as achararem que eu era tipo muito estudiosa e comia livros escolares no café da manhã. Não que isso tenha adiantado muito, a maior parte não gostava de mim do mesmo jeito. E, provavelmente, qualquer um que ler esse texto (tirando a minha mãe - oi, mãe!) também vai deixar de gostar - se é que gostava.
10. Ainda assim, ganhei cartinhas pra participar de programas especiais nas faculdades que prestei pela minha classificação. E fui convidada a começar meus estudos em uma federal enquanto ainda estava no colégio (até fui, mas depois deixei pra lá, como disse ali em cima - basicamente porque ainda tinha Fuvest no fim do ano).
11. O que foi uma pena, de certa forma, não pelas matérias obrigatórias, mas porque eu tinha certos interesses e estava num lugar onde eu poderia persegui-los, só que não dava porque eu estava sempre cansada (eu tinha que acordar 4h da manhã, pegar trem, metrô, ônibus - tudo lotado -, chegava em casa às 8, 9, 10h da noite - só queria dormir/tomar banho/comer em todo o tempo). Ainda assim, ganhei o prêmio Lavoisier.
12. Isso não é interessante.
13. $
14. Badalhoca.
15. Duh.
16. "Ele gostava de todos os livros, porque adorava o simples ato de ler, a magia de transformar os rabiscos de uma página em palavras dentro da cabeça".
17. Depois do 10º ciclo apaixonar-se-e-levar-um-fora-de-uma-garota-chamada-Katherine, Colin passou a acreditar que havia mesmo um padrão.
18. Nem só de Colins e Katherines vive O Teorema. Outros personagens, como Hassan, também são interessantes.

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